segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Jogo dos 7 erros

Às vezes eu esqueço que somos pessoas para as outras diferente do que somos para nós mesmos.
Esqueço do quanto aparentamos ser coisas diferentes da realidade, do quanto escondemos alguns fragmentos da nossa personalidade. E, ao mesmo tempo, de como algumas pessoas são capazes de nos mostrar lados ocultos que possuímos.
Alguém escreveu que sou um tanto rebelde, que "não levo desaforo pra casa", apesar de uma fragilidade levemente evidente. Nunca imaginei que passasse essa imagem para alguém, a não ser pelo lado frágil de ser. Mas é verdade: brigo, grito, xingo... e acabo no choro.
Não suporto uma injustiça, não gosto de estupidez injustificável, não aguento seguir uma discussão calada, apenas ouvindo. No calor da coisa, me recuso a aceitar uma atitude errada de minha parte, minha culpa no cartório. A razão é minha, a última palavra tem que (ou deveria) ser minha e a minha voz, a mais alta.
Quem conhece ou já passou por esse meu lado? Quem mora comigo, quem me conhece a mais de 5 anos, quem tem uma relação íntima comigo... Talvez a grande parcela de pessoas que esteja contida na minha vida não, porque insisto em ser simpática, para que sejam comigo. Até um ponto.
Porventura isso seja depreciador, porque quanto mais alguém me conhece, mais se decepciona - afinal os conflitos são proporcionais à intimidade.
Whatever, nunca falei que não tinha defeitos. Grandes defeitos, eu diria.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O galinha paradoxal

Leiam Malu de Bicicleta, de Marcelo Rubens Paiva. (E se me permitem o pitaco, ouvindo o último CD do Maroon 5 - It Won't Be Soon Before Long. Não há trilha sonora melhor, pelo menos pra mim)

O começo da história lhe faz ter dó de Luiz. O meio, nojo de sua canalhice, graça de sua cara de pau, inveja de sua despreocupação anterior à Malu, riso por suas aventuras, inconformidade com sua galinhagem, compaixão por seu amor encontrado. Mas no fim... Primeiro um desalento solidário, depois uma raiva repentina e por fim... pena por sua burrice.
Só tome cuidado para não desacreditar (muito) do amor. :)

domingo, 9 de novembro de 2008

Musicando

Eu tenho uma mania estranha de associar músicas com livros e fatos. Normalmente escolho um playlist para ouvir por duas, três semanas; ou então a seleção de músicas dura até o fim daquela história. Depois mudo de livro e de musiquinhas também.
Sim, sou metódica e cheia de rituais estranhos.
Mas essa esquisitice tem um porquê: é muito bom ouvir determinada música e associá-la com determinado enredo, determinado capítulo. Ouvir Girando na Renda, da Roberta Sá, e lembrar dos encontros amorosos escondidos de Júlia e Winston, de 1984. Superstar, Sonic Youth, como trilha sonora do conto de Woody Allen sobre a anã platonicamente apaixonada pelo homem branco e alto, de Fora de Órbita. Sea of Love (Cat Power) junto com Retrato em Preto e Branco (Chico querido) e as conflitantes relações amorosas de A Insustentável Leveza do Ser. Combinada com os conflitos de Vírginia da obra-prima de Lygia Fagundes Telles, Ciranda de Pedra, Ela É, da banda pouco conhecida chamada Validuaté. Ou então, Você Vai Ver, do meu adorado João Gilberto. Maria Rita cantando Menininha do Portão: ligação direta com Clarissa, criada por Érico Veríssimo.
Killing Lies, dos Strokes, me faz lembrar do ponto de ônibus depois de aulas maçantes no cursinho, com direito a flertes - nada fatais, ficadica. Jack Johnson e sua Do You Remember acompanhando a curtíssima caminhada até a escola onde fazia o ensino médio - e onde passei todo o tempo contando os dias para a fuga de um lugar hostil. A bobinha Lovefool - The Cardigans - e duas retardadas dançando na sala de aula. Copacabana - Móveis Coloniais de Acaju - e o começo do namoro. Da Marisa Monte, Bem Leve, para a lembrança de uma menina de 10 anos dançando de vestido de bolinhas na sala depois do jantar, durante o horário eleitoral. Paquetá, dos saudosos Los Hermanos, e a belíssima Ilhabela. Lily Allen e sua LDN num dia que deu vontade de descer 10 pontos antes e ir andando numa tarde bem agradável. Oil and Water (Incubus) e a fuga de 3 trombadinhas no meio da rua para não ser assaltada. De Vanguart, Hey Yo Silver, e uma Winnie ligeiramente bêbada no Studio SP. Love Will Tear us Apart, do Joy Division e a semana depois do diagnóstico. Cansei de Ser Sexy e Superafim com amigos sem noção. Foo Fighters e sua All my Life: recordação da 8ª série tão boa, não sei bem por que.
Enumerar todas as canções e os livros, acontecimentos, fases a que estão ligados despenderia muito tempo. Só vou recomendar que experimentem a técnica de associação. As histórias e os personagens num dia ou outro ressurgirão provocados por uma melodia. E a vida terá sempre uma trilha sonora particular.

Esse post também teve a sua. :)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O que ainda resta de irracionalidade...

Naquele corpo vagueia uma vontade, um desejo reprimido pela moral e pela vergonha. Mas é um corpo tão cansado, tão abatido, que clama desesperadamente por um descanço.
A vontade vem às vezes no sonho. O acontecimento se faz real nos lençóis da inconsciência noturna e aquele corpo acorda triste, enojado consigo mesmo. Quer lavar-se da sujeira de seus pensamentos, quer ficar desperto para não reviver a cena criada em sua mente.
E o dia corre. Correm também as idéias, essas crianças endiabradas, sem educação e impossíveis de controlar; na melhor analogia até aqui encontrada. E elas remontam o sonho, na hora de comer, na hora de andar, em qualquer hora que esteja associada a viver.
O corpo deixa de ser corpo, essa reunião de células agitadas e inconstantes. Passa a ser mente, e só. E então o desejo domina, superior ao que a fé e a essência de certo-errado estabelecem.
Nesses instantes, homens tornam-se egoístas, querem o fim de situações insuportáveis, anseiam por mudanças que melhorem suas vidas, seja como for.
Talvez seja nessas horas que homens roubem, agridam, matem.
A maioria, ainda bem, se envergonha e se desvencilha das amarras dos desejos ignóbeis.

domingo, 12 de outubro de 2008

Adolescência

"Chora as lágrimas vindas do âmago.
Molha a face infanto-juvenil do ser
que se agiganta.
Emoções desencontradas,
sentimentos confusos.
O retiro ao canto solitário, na
busca de si mesma.
Vulcão ardente no peito soluçante, expele
a lava da inconstância.
O calor das sensações inexplicáveis
para a pouca idade.
Situação passageira que confunde e se explica.
Busca urgente o compartilhar,
enquanto sozinha, não consegue entender.
Desafoga então o seio palpitante, para
não deixar estanque."

Do pai pra mim.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Não existe, mas incomoda

Um peso que provoca sensação de vazio. Uma dúvida permeia, o instante não volta, a impotência domina... Tantas razões, mas nenhum porquê.
Alguma coisa reprimida, calada, infeliz que cresce por brotamento ou bipartição. Não vai explodir, não vai se romper. Vai corroer.
E depois fugir. Porque as coisas que começam sem sentido sempre acabam sem explicação.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

As palavras para quem sabe realmente usá-las

"(...)Como todo homem, sou meu próprio pior inimigo. Ao contrário da maioria dos homens, porém, sei também que sou meu próprio salvador. Sei que liberdade significa responsabilidade. Sei igualmente com que facilidade o desejo pode ser convertido em ação. Ainda quando fecho os olhos, devo tomar cuidado com meus sonhos e o seu tema, pois agora apenas o mais fino véu separa o sonho da realidade."

Tirado de O Mundo do Sexo, Henry Miller.

sábado, 13 de setembro de 2008

Sonhos ou devaneios?

Ele sempre calado, conformado, sem se queixar, naquela vida simples de poucas ambições. Pouquíssimas. Mas um dia lhe veio uma vontade de sair por aí, conhecer gente nova, andar sem destino. Até porque a liberdade sempre o encantou.
E saiu do aconchego e da segurança de seu lar. Aproveitou a melhor oportunidade para armar-se de coragem e ultrapassar os portões da vigilância alheia. Primeira coisa que fez? Respirar o ar puro do mundo sem grades, portões e muros. A rua estava ali, com todo seu movimento, sua intensidade, sua inconstância e sua impessoalidade. Ele sabia que haviam regras, leis, normas de convivência mesmo ali na calçada ou no asfalto desgastado. Mas pouco importava.
Ele poderia caminhar por horas sem dar conta de seu rumo a ninguém. Comeria restos ou pratos requintados, dormiria onde quisesse na hora que melhor lhe apetecesse, faria amigos bons e ruins, confrontaria os inimigos que surgissem...
Ah, tantos planos e ele ali ainda parado! Inspirou profundamente e correu. Para a felicidade.
E ela veio iluminada pelo farol do ônibus, que lhe deu asas por instantes para jogá-lo num precipício de idéias e sonhos, onde ele enxergava cores, cheiros, rostos, desejos e todos os seus planos ali misturados de modo confuso e mágico. Caiu enfim com brusquidão no chão cinzento de listras amarelas e ainda pôde prever seu futuro tão maravilhoso.
Fechou os olhos, então. Mais um cachorro morria nas ruas de São Paulo.




[Tributo ao finado King! ^^]

domingo, 7 de setembro de 2008

Da amizade que já é, mas que virá.

As duas se aproximam como imãs, com palavras recatadas que se acumulam na boca - tão prontas para o mundo e para o ouvido alheio ali ao lado. As mesmas músicas tocam em seus respectivos fones de ouvido, os mesmos livros ocupam as mesinhas de seus quartos, os mesmos lugares e eventos recebem suas presenças... E ainda, no entanto, há um muro entre elas, como o de Berlim.
Se encontram, trocam sorrisos. Andam na rua juntas por um acaso da vida, conversam de coisas aleatórias, com idéias e opiniões que se encontram numa grande intersecção de pensamentos. E a afinidade pulsa, reclama liberdade e intercâmbio. Mas elas continuam tensas, recolhidas mentalmente num duelo de entrega e repulsa.
Intercalam entre si momentos de ansiedade por essa aproximação. Outras vezes de receio ou de antipatia. Um misto de sentimentos que só amigos têm.
É, amigas. Porque elas são isso, nada mais que isso. Só lhes falta a oportunidade de deixar fluir plenamente a afinidade que faz sombra entre elas quando caminham lado a lado, num silêncio confidente.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Quase biográfico

Na mesinha do lado da cama repousa Clarissa, um livro alaranjado de pequena espessura feito, porém, de páginas delicadamente escritas para encantar o leitor. Da narrativa simples surge uma vontade imensa de resgastar a personagem pra fora do papel e lhe contar os mistérios da vida que tanto lhe causam curiosidade.
Por quê? Ora, basta lembrar de si com os mesmos anos. Menos ingênua - claro, mas com a mesma mania de absorver do mundo todos os segredos, as confissões, as explicações, as razões, os desejos... Sentir, guardar dentro de si e criar um quebra-cabeça da vida.
Tudo é tão novo, espetacular e instigante! E a cada descoberta incipiente um sentimento de superioridade submissa, afinal ainda há de vir outra revelação. É como mergulhar na onda forte e esperar a próxima, confiante por ter ultrapassado a primeira.
O engraçado é que dizem: "Criança é que é feliz. Tudo é festa, veja só!". Mas o mundo não pára, o novo não deixa de surgir, os mistérios tornam a se multiplicar.
Não se aborreça, Clarissa. Haverá sempre o que descobrir. Até porque o inexplicável de um dia para o outro se transforma na mais compreensível das coisas, e é assim desde sempre.