Envolta em lençol e suor, ela sentia-se leve com o peso do outro corpo. Era como uma dança que, embora improvisada, parecia exaustivamente ensaiada. Um balé de mãos, bocas, braços e pernas, de movimentos ora suaves, ora deliciosamente bruscos, ou brutos.
Ela sentia arrepios, calafrios, tonturas, delírios - êxtase. Em cada uma das sensações, via-se perdida. Perdia-se do próprio corpo, ainda que sentisse cada terminação nervosa, ainda que apenas o vento suave do cômodo se transformasse em furacão ao tocar a sua pele. Perdia a compostura, a sanidade e a noção do tempo. E a vida lá fora perdia aquela mulher, que era agora tão e somente de um homem.
Deitada naquele lençol tão cheio de odores e fluidos, ela notou o quanto era infeliz, num misto de auto-piedade e comodismo. Porque ela já tinha tentado tanto, lutado tanto e acabara por cair na mediocridade da sobrevivência a todo custo. Quem há de julgar, ponderava, quando se tem o estômago e a mente vazios, de fome, abandono e tristeza?
Pensava em toda a sua vida e em todas as suas desgraças apenas para não lembrar onde estava. Ali, vendendo seu corpo, vendendo um falso prazer. Nos lapsos de realidade que surgiam, enojava-se com aqueles movimentos, que pareciam tão animalescos, e com aquele homem entorpecido, uma visão grotesca de um ser humano tomado por desejos incontroláveis.
A ponto de vomitar, fechava os olhos e tentava voltar à análise de seu infortúnio absoluto. Preferia chocar-se com a mediocridade de sua existência do que com a repugnância de sua prostituição.
Dois quartos, duas mulheres. E quantas outras existem por aí?
sábado, 28 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
Bilhete
"Falo em 'não criar expectativas' ao mesmo tempo em que já idealizo toda uma versão de vc, tão parecida comigo. Porque, aparentemente, gostamos das mesmas músicas, dos mesmos livros, dos mesmos lugares da cidade. E vc usa crase, vírgulas bem posicionadas e constrói frases ortograficamente belas. Tem um senso de humor atraente e uma barba charmosa.
Então, me sinto uma criança. Uma menina tola de 14 anos, encantada pelo cara que pouco conhece. Queria ter a coragem que tanto me exigem por aí. Convidá-lo pra mais um passeio, pra um cinema, pra minha vida.
Será que há reciprocidade? Será que vc aceitaria? :)"
Escreveu tudo isso num papel amassado. Colou na parede e esperou pelo futuro, porque talvez aquilo fosse uma lembrança útil caso tudo se tornasse real.
Será que há reciprocidade? Será que vc aceitaria? :)"
Escreveu tudo isso num papel amassado. Colou na parede e esperou pelo futuro, porque talvez aquilo fosse uma lembrança útil caso tudo se tornasse real.
quarta-feira, 28 de março de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
Classificados
O velho fitou a moça à sua frente, incrédulo.
- Você não pode anunciar isso, menina!
Ela ajeitou a bolsa no colo, incomodada. Detestava negativas autoritárias.
- Como não?!
- A senhorita está maluca ou acordou querendo fazer alguém de idiota? Pois saiba que meu tempo é dinheiro, menina! Toma essa droga de papel e saia da minha sala antes que eu me aborreça.
- Que absurdo, seu grosseiro! - dedo em riste, mas ainda sentada. Viera com uma intenção e não sairia de lá até conseguir o que queria.
- E a senhorita quer que eu fale como?
- Comece não usando esse "senhorita" cheio de ironia! Sou, antes de qualquer coisa, uma cliente. Não é assim que o senhor trata os seus clientes, espero.
- Meus clientes não trazem esse tipo de anúncio estúpido.
- Estúpido?! O que tem de estúpido nele?
O velho a fitou por um instante, com os olhos arregalados, o bigode ouriçado e as orelhas vermelhas. Então, percebendo que ela falava sério e perdendo a pouca fé que ainda tinha na humanidade, apoiou o cotovelo na mesa e a palma da mão no rosto, balançando a cabeça em negativa. "Por que diabos essas coisas acontecem comigo, santo deus?!", pensou.
Ergueu os olhos novamente em direção àquela mocinha que à primeira vista lhe parecera tão simpática.
- Olha, minha querida, entendi. Você tá falando sério e eu acho tudo isso muito bonitinho. Essa coisa de jovem e tudo mais. Mas veja bem, menina... O que eu faço é uma coisa séria e...
- Mas isso também é sério, caramba! O que foi? O senhor acha que eu não vou pagar? Eu vou, fique tranquilo! - e mostrou a carteira cheia de notas amassadas.
- Não é essa a questão. O problema é que isso que vc quer anunciar não tem pé nem cabeça. Quer dizer, até tem, mas não pra Classificados sérios! Fora o tamanho disso, vai custar todo esse seu dinheiro aí!
- E há coisa mais séria do que isso que eu procuro?!
Ele respirou fundo, fechou os olhos e tentou pensar no almoço de logo mais, para espairecer.
- Querida, as pessoas vêm aqui pra anunciar imóveis, carros, vagas de emprego, serviços domésticos, seja lá o que for. Mas, sabe, são coisas de verdade!
- Problema delas que focam em futilidades! O que eu procuro é muito mais "de verdade"!
- Ai, meu deus...
- Olha, o senhor pode não concordar com o que eu anuncio, mas e daí? Vou pagar, pronto. Se eu quiser anunciar a calcinha bege usada da minha vó falecida, o problema é meu, desde que eu pague!
- Até a calcinha bege da sua vó faria mais sentido, com todo o respeito...
Ela bufou.
- Ok, ok. Você venceu, mocinha. Mas não venha reclamar depois se as pessoas te acharem malucas. Ou se apenas gente maluca te contatar!
Ela sorriu, triunfante.
- Farei de graça. Só pela sua insistência, e também pela extensão do anúncio. Sairia muito caro, mocinha. Mas, como é um tanto poético, pode servir de publicidade.
Uma ligeira mentira. No fundo, aquilo o comoveu, porque o fez lembrar de coisas antigas que ainda estavam ali em sua vida.
- Muito obrigada, senhor. Pode ser que não dê certo, mas pelo menos eu tentei...
Deram um aperto de mão. O velho observou-a sair, ainda (ou mais) incrédulo.
No dia seguinte, entre um Corsa Sedan prata e uma empregada diarista, o seguinte anúncio constava nos Classificados:
"Procura-se alguém para conversar seriedades e bobagens, por horas. Alguém para ir ao cinema no sábado, ao show tão esperado, ao parque no dia ensolarado. Alguém para abraçar com ternura e beijar com intensidade. Alguém para discutir terrivelmente, fazer as pazes e fazer sexo. Alguém para me emprestar o casaco no frio, me esconder do vento, correr comigo na chuva. Alguém que me traga uma surpresa, ainda que não sejam flores ou grandes presentes. Alguém que goste das mesmas coisas que eu eu - ou que pelo menos deteste as mesmas. Alguém que se ofereça para comprar a cerveja, que segure as sacolas ou malas pesadas, que me acompanhe na volta, tarde da noite. Alguém que queira conhecer o mundo comigo ou que me faça conhecer um lado novo do que eu já vivo. Alguém que faça mais rir do que chorar. Alguém para sonhar comigo ou me trazer à realidade. Alguém que faça das coisas simples, como um café pela manhã ou uma partida de videogame de madrugada, algo incrível e inesquecível. E que não se importe com essa minha breguice, que alguns chamam de romantismo."
- Você não pode anunciar isso, menina!
Ela ajeitou a bolsa no colo, incomodada. Detestava negativas autoritárias.
- Como não?!
- A senhorita está maluca ou acordou querendo fazer alguém de idiota? Pois saiba que meu tempo é dinheiro, menina! Toma essa droga de papel e saia da minha sala antes que eu me aborreça.
- Que absurdo, seu grosseiro! - dedo em riste, mas ainda sentada. Viera com uma intenção e não sairia de lá até conseguir o que queria.
- E a senhorita quer que eu fale como?
- Comece não usando esse "senhorita" cheio de ironia! Sou, antes de qualquer coisa, uma cliente. Não é assim que o senhor trata os seus clientes, espero.
- Meus clientes não trazem esse tipo de anúncio estúpido.
- Estúpido?! O que tem de estúpido nele?
O velho a fitou por um instante, com os olhos arregalados, o bigode ouriçado e as orelhas vermelhas. Então, percebendo que ela falava sério e perdendo a pouca fé que ainda tinha na humanidade, apoiou o cotovelo na mesa e a palma da mão no rosto, balançando a cabeça em negativa. "Por que diabos essas coisas acontecem comigo, santo deus?!", pensou.
Ergueu os olhos novamente em direção àquela mocinha que à primeira vista lhe parecera tão simpática.
- Olha, minha querida, entendi. Você tá falando sério e eu acho tudo isso muito bonitinho. Essa coisa de jovem e tudo mais. Mas veja bem, menina... O que eu faço é uma coisa séria e...
- Mas isso também é sério, caramba! O que foi? O senhor acha que eu não vou pagar? Eu vou, fique tranquilo! - e mostrou a carteira cheia de notas amassadas.
- Não é essa a questão. O problema é que isso que vc quer anunciar não tem pé nem cabeça. Quer dizer, até tem, mas não pra Classificados sérios! Fora o tamanho disso, vai custar todo esse seu dinheiro aí!
- E há coisa mais séria do que isso que eu procuro?!
Ele respirou fundo, fechou os olhos e tentou pensar no almoço de logo mais, para espairecer.
- Querida, as pessoas vêm aqui pra anunciar imóveis, carros, vagas de emprego, serviços domésticos, seja lá o que for. Mas, sabe, são coisas de verdade!
- Problema delas que focam em futilidades! O que eu procuro é muito mais "de verdade"!
- Ai, meu deus...
- Olha, o senhor pode não concordar com o que eu anuncio, mas e daí? Vou pagar, pronto. Se eu quiser anunciar a calcinha bege usada da minha vó falecida, o problema é meu, desde que eu pague!
- Até a calcinha bege da sua vó faria mais sentido, com todo o respeito...
Ela bufou.
- Ok, ok. Você venceu, mocinha. Mas não venha reclamar depois se as pessoas te acharem malucas. Ou se apenas gente maluca te contatar!
Ela sorriu, triunfante.
- Farei de graça. Só pela sua insistência, e também pela extensão do anúncio. Sairia muito caro, mocinha. Mas, como é um tanto poético, pode servir de publicidade.
Uma ligeira mentira. No fundo, aquilo o comoveu, porque o fez lembrar de coisas antigas que ainda estavam ali em sua vida.
- Muito obrigada, senhor. Pode ser que não dê certo, mas pelo menos eu tentei...
Deram um aperto de mão. O velho observou-a sair, ainda (ou mais) incrédulo.
No dia seguinte, entre um Corsa Sedan prata e uma empregada diarista, o seguinte anúncio constava nos Classificados:
"Procura-se alguém para conversar seriedades e bobagens, por horas. Alguém para ir ao cinema no sábado, ao show tão esperado, ao parque no dia ensolarado. Alguém para abraçar com ternura e beijar com intensidade. Alguém para discutir terrivelmente, fazer as pazes e fazer sexo. Alguém para me emprestar o casaco no frio, me esconder do vento, correr comigo na chuva. Alguém que me traga uma surpresa, ainda que não sejam flores ou grandes presentes. Alguém que goste das mesmas coisas que eu eu - ou que pelo menos deteste as mesmas. Alguém que se ofereça para comprar a cerveja, que segure as sacolas ou malas pesadas, que me acompanhe na volta, tarde da noite. Alguém que queira conhecer o mundo comigo ou que me faça conhecer um lado novo do que eu já vivo. Alguém que faça mais rir do que chorar. Alguém para sonhar comigo ou me trazer à realidade. Alguém que faça das coisas simples, como um café pela manhã ou uma partida de videogame de madrugada, algo incrível e inesquecível. E que não se importe com essa minha breguice, que alguns chamam de romantismo."
terça-feira, 13 de março de 2012
Olé
"- Não me conformo, quando penso que minha vida vai passando tão depressa e não vivo realmente.
- Ninguém vive com a intensidade que deseja, exceto os toureiros."
É, Hemingway... Eu até compraria uma capa vermelha, mas acho tourada uma coisa estúpida demais pra isso.
Talvez viver intensamente também seja.
É, Hemingway... Eu até compraria uma capa vermelha, mas acho tourada uma coisa estúpida demais pra isso.
Talvez viver intensamente também seja.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Uma pequena caixa
Existe uma caixinha, pequena e delicada, que passa a maior parte do tempo guardada. Praticamente escondida, a salvo da umidade, do calor e das pessoas, dentro de um cofre de combinação absurda e inimaginável.
Então, aparece alguém. Alguém diferente dos outros, que te deixa segura o suficiente para retirar a caixinha de seu lugar. Mesmo que aos poucos, por receio ou dúvida. Desse modo, você coloca o pacote no meio das coisas desse alguém, sem comentar. Porque não precisa - o mais importante é a mudança, notada por ambos.
O problema é que, em algum momento, essa pessoa talvez não queira mais sua caixinha ou só não goste mais de vê-la entre seus objetos, porque não combinam. E você voltará para casa com o embrulho na mão, todo amassado, destruído.
A partir daí, será preciso reformar a caixinha, deixá-la bonita e delicada novamente. É um pouco demorado e trabalhoso, mas possível.
Quando ela estiver pronta de novo, guarde e espere por outro alguém que a aceite. Repita o processo o quanto for necessário. Ou o quanto você aguentar e ainda acreditar na entrega dessa caixinha.
Então, aparece alguém. Alguém diferente dos outros, que te deixa segura o suficiente para retirar a caixinha de seu lugar. Mesmo que aos poucos, por receio ou dúvida. Desse modo, você coloca o pacote no meio das coisas desse alguém, sem comentar. Porque não precisa - o mais importante é a mudança, notada por ambos.
O problema é que, em algum momento, essa pessoa talvez não queira mais sua caixinha ou só não goste mais de vê-la entre seus objetos, porque não combinam. E você voltará para casa com o embrulho na mão, todo amassado, destruído.
A partir daí, será preciso reformar a caixinha, deixá-la bonita e delicada novamente. É um pouco demorado e trabalhoso, mas possível.
Quando ela estiver pronta de novo, guarde e espere por outro alguém que a aceite. Repita o processo o quanto for necessário. Ou o quanto você aguentar e ainda acreditar na entrega dessa caixinha.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Uma ilha
Uma ilha perdida no mundo, sem grandes atrativos visuais e turísticos; por isso mesmo, abandonada. E o abandono não fez dali um paraíso. Pelo contrário, transformou todo o lugar numa completa falta de vida.
Os dias eram sempre cinzentos, nublados, de uma garoa fina e persistente. Não fazia frio nem calor - era um clima indefinido, como se até para com isso a ilha demonstrasse descaso.
Por algum motivo desconhecido, não cresciam flores nem árvores, apenas um punhado de mato disforme aqui e ali, sem muita força para se espalhar. Os animais, raros, viviam escondidos, seja por sua feiúra ou por sua aversão ao que, infelizmente, era seu habitat.
Exceto pelo barulho do vento teimoso que ia e vinha em todas as direções, tudo era silencioso e inexpressivo por ali. Um lugar ao acaso, sem propósito, desanimador e um pouco cruel em sua indiferença para com a vida.
Nesse ambiente hostil, estava ela sentada num ponto qualquer da ilha, como todos ali o eram. Encolhida, como se quisesse criar um casulo protetor com seu próprio corpo. Porque era tudo o que tinha ali, depois e mais além. E, apesar da posição desconfortável, ela não sentia dor. Simplesmente não sentia nada.
Por vezes, pensou que o nada fosse o que chamam de paz. Mas notou que o nada era difícil, incômodo e desagradável. Jamais poderia, entretanto, descrever o nada. O nada era a ilha, ela, tudo o que conhecia e sentia. Ou simplesmente era a falta de todos os sentidos, coisas que já não mais a pertenciam.
Um dia, decidiu não pensar, até mesmo sobre o nada. E a ausência de tudo foi tornando-a pesada e inativa. Desde então, permanece encolhida. Quieta, ausente, rodeada pela falta de vida da ilha.
A ilha que alguns chamam de solidão.
Os dias eram sempre cinzentos, nublados, de uma garoa fina e persistente. Não fazia frio nem calor - era um clima indefinido, como se até para com isso a ilha demonstrasse descaso.
Por algum motivo desconhecido, não cresciam flores nem árvores, apenas um punhado de mato disforme aqui e ali, sem muita força para se espalhar. Os animais, raros, viviam escondidos, seja por sua feiúra ou por sua aversão ao que, infelizmente, era seu habitat.
Exceto pelo barulho do vento teimoso que ia e vinha em todas as direções, tudo era silencioso e inexpressivo por ali. Um lugar ao acaso, sem propósito, desanimador e um pouco cruel em sua indiferença para com a vida.
Nesse ambiente hostil, estava ela sentada num ponto qualquer da ilha, como todos ali o eram. Encolhida, como se quisesse criar um casulo protetor com seu próprio corpo. Porque era tudo o que tinha ali, depois e mais além. E, apesar da posição desconfortável, ela não sentia dor. Simplesmente não sentia nada.
Por vezes, pensou que o nada fosse o que chamam de paz. Mas notou que o nada era difícil, incômodo e desagradável. Jamais poderia, entretanto, descrever o nada. O nada era a ilha, ela, tudo o que conhecia e sentia. Ou simplesmente era a falta de todos os sentidos, coisas que já não mais a pertenciam.
Um dia, decidiu não pensar, até mesmo sobre o nada. E a ausência de tudo foi tornando-a pesada e inativa. Desde então, permanece encolhida. Quieta, ausente, rodeada pela falta de vida da ilha.
A ilha que alguns chamam de solidão.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Mergulho
Observou por dias, perdida em pensamentos sobre curiosidades, sentimentos e sentidos. Analisou cada tonalidade, sorveu cada fragrância, experimentou cada textura, saboreou cada gosto, escutou cada ruído e, nas últimas horas, viu essências coloridas que rasgavam a carne com sabores adocicados.
Por conta delas, levantou-se, impulsiva e cautelosa. Correu com leveza ao encontro dessas sensações ou ao encontro de si, porque tudo era também parte dela. A cada passo, dissolvia-se e integrava-se, ao mesmo tempo em que completava-se e unificava-se. Seu corpo, então, virou o mundo inteiro e ela sentiu todas as formas de vida dentro de si. Uma tormenta deliciosa de cotidianos que criou nela um novo ser, agora singular e renovado.
De repente, perdeu o equilíbrio. Foi tragada, envolvida e submergiu. Mas, ainda que sem fôlego e força, tornava-se mais intensa e vivaz. Parecia voar, quando na realidade afundava. E a gradual profundidade - apesar de também constituída de segredo, beleza e extravagância - era sinônimo de ausência. Ausência de oxigênio, de controle, de si mesma.
Assim, desistiu e se entregou. Deixou-se cair na escuridão. Uma escuridão serena.
Morreu afogada. Ou morreu de amor.
Por conta delas, levantou-se, impulsiva e cautelosa. Correu com leveza ao encontro dessas sensações ou ao encontro de si, porque tudo era também parte dela. A cada passo, dissolvia-se e integrava-se, ao mesmo tempo em que completava-se e unificava-se. Seu corpo, então, virou o mundo inteiro e ela sentiu todas as formas de vida dentro de si. Uma tormenta deliciosa de cotidianos que criou nela um novo ser, agora singular e renovado.
De repente, perdeu o equilíbrio. Foi tragada, envolvida e submergiu. Mas, ainda que sem fôlego e força, tornava-se mais intensa e vivaz. Parecia voar, quando na realidade afundava. E a gradual profundidade - apesar de também constituída de segredo, beleza e extravagância - era sinônimo de ausência. Ausência de oxigênio, de controle, de si mesma.
Assim, desistiu e se entregou. Deixou-se cair na escuridão. Uma escuridão serena.
Morreu afogada. Ou morreu de amor.
domingo, 3 de abril de 2011
Sofrer
Feche os olhos (pesados) e sinta cada pedaço em que você se transformou. Cacos, por assim dizer, como vestígios de um vaso de porcelana outrora apresentável. Perceba seu corpo quebrando: mutilado, lentamente se partindo em milímetros, de forma penosa e sem reconstituição.
Sinta aquele vapor escuro e corrosivo que enche o peito e vai silenciosamente tomando conta das suas células, ganhando consistência de uma massa disforme e pesada, até virar líquida e transparente ao cair dos olhos. Ouça sua respiração perdida e o oxigênio que lamenta a pouca força com que você enche os pulmões de ar - por descaso ou cansaço.
Abra os olhos e note que você não pode enxergar. Tudo que vê são manchas disformes e a poeira de si que cai descuidosamente no chão, deixando vestígios da demolição interior. Ao cerrar as pálpebras, entretanto, observe-se numa análise minuciosa. Ao fazê-lo, veja tudo o que um dia foi, o que outras pessoas esperaram que fosse e o que desejou ser.
E então seus músculos vão fraquejar e cada terminação nervosa provocará choques de intensidade insuportável, desumana. Suas cordas vocais vão agir quase sozinhas e sua boca produzirá um grito mudo, porque, apesar disso, não há voz.
Esse grito vai voltar para dentro de você e rasgar qualquer tecido que encontrar, provocando-lhe as papilas gustativas a sentir um gosto amargo e nojento que causará ânsia. O que você vomitará, contudo, serão sonhos perdidos, ódios inexplicáveis, mágoas trancafiadas e fracassos iminentes.
O enjoo, nesse momento, cederá lugar à sensação de falência múltipla dos órgãos. Acreditará que morreu por dentro, mas a persistente dor lhe mostrará que ainda vive. Mesmo que frágil, danificado - ainda vive.
Essa esperança vaga e sádica tomará conta de você e funcionará como um tipo de anestesia, adormecendo cada pedaço dos seus escombros. Por fim, terá sonhos intranquilos e incrivelmente reais.
No dia seguinte, porém, tudo isso será menos pior. Ou assim espera-se.
Sinta aquele vapor escuro e corrosivo que enche o peito e vai silenciosamente tomando conta das suas células, ganhando consistência de uma massa disforme e pesada, até virar líquida e transparente ao cair dos olhos. Ouça sua respiração perdida e o oxigênio que lamenta a pouca força com que você enche os pulmões de ar - por descaso ou cansaço.
Abra os olhos e note que você não pode enxergar. Tudo que vê são manchas disformes e a poeira de si que cai descuidosamente no chão, deixando vestígios da demolição interior. Ao cerrar as pálpebras, entretanto, observe-se numa análise minuciosa. Ao fazê-lo, veja tudo o que um dia foi, o que outras pessoas esperaram que fosse e o que desejou ser.
E então seus músculos vão fraquejar e cada terminação nervosa provocará choques de intensidade insuportável, desumana. Suas cordas vocais vão agir quase sozinhas e sua boca produzirá um grito mudo, porque, apesar disso, não há voz.
Esse grito vai voltar para dentro de você e rasgar qualquer tecido que encontrar, provocando-lhe as papilas gustativas a sentir um gosto amargo e nojento que causará ânsia. O que você vomitará, contudo, serão sonhos perdidos, ódios inexplicáveis, mágoas trancafiadas e fracassos iminentes.
O enjoo, nesse momento, cederá lugar à sensação de falência múltipla dos órgãos. Acreditará que morreu por dentro, mas a persistente dor lhe mostrará que ainda vive. Mesmo que frágil, danificado - ainda vive.
Essa esperança vaga e sádica tomará conta de você e funcionará como um tipo de anestesia, adormecendo cada pedaço dos seus escombros. Por fim, terá sonhos intranquilos e incrivelmente reais.
No dia seguinte, porém, tudo isso será menos pior. Ou assim espera-se.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Da calçada, sonha-se
O sol vencia a sombra invernal dos prédios e árvores, delimitando um pequeno espaço claro e quente naquela calçada irregular. Uma infinidade de pessoas iam e vinham como zumbis: senhoras idosas em busca de resquícios de vida na rua, mulheres bem vestidas e de séria sensualidade, homens de passos duros numa afirmação de masculinidade, crianças que arrastavam os pés na tentativa de acompanhar o ritmo dos adultos, tão focados em seus destinos.
E tão focados estavam - ou assim eram permanentemente - que sequer notavam pedaços de pano velho e células destruídas jogadas no chão, naquela fresta de sol. Vez ou outra, os pés cheios de bolhas e sujeira atrapalhavam a caminhada de algum transeunte, que gastava alguns segundos do seu dia para definir aquele corpo desfalecido como de bêbado ou para oferecer-lhe uma dose homeopática de compaixão.
Quem de fato notava a existência daquele homem, entretanto, eram as formigas que faziam de seu rosto parte do trajeto comunitário e os ácaros que dividiam com ele o tecido desbotado cobrindo aquela pele manchada - de sol, de sujeira e de dor.
Mas ali, deitado em posição fetal, sob o calor sutil dos fracos raios luminosos, ele era outro. Um outro que existia de forma tão convincente em seus devaneios que ele, o resto de ser humano real, conseguia sentir os cheiros, as texturas e os sabores de ser alguém digno e notável.
E o Outro era mais que isso. Porque além de limpo, bem tratado, saudável, belo e elegante, era poderoso, rico, sábio e invejado. Tinha o mundo a seus pés; jamais os seus pés estariam ali, chutados pelo mundo. Ria com todos os dentes e com todas as razões. Comandava multidões com um olhar incisivo e impunha suas decisões com um único gesto. Era mais que um homem.
Naquele momento, o Outro degustava um jantar requintado, servido por belas mulheres e acompanhado por rapazes brilhantes que esperavam uma palavra sua. Tinha ao seu alcance todas as invenções mais impressionantes, as bebidas mais elaboradas e os mais diversos títulos literários, bons e ruins. Depois do banquete, poderia admirar os jardins gigantescos e bem cuidados de sua casa, enquanto observava os limites de suas conquistas e a chuva fina que decorava as pétalas das flores.
Enquanto isso, o homem caído na calçada agitava-se sob uma chuva fria vinda inesperadamente, molhando os vestígios de roupa marcados pelas próprias fezes.
E tão focados estavam - ou assim eram permanentemente - que sequer notavam pedaços de pano velho e células destruídas jogadas no chão, naquela fresta de sol. Vez ou outra, os pés cheios de bolhas e sujeira atrapalhavam a caminhada de algum transeunte, que gastava alguns segundos do seu dia para definir aquele corpo desfalecido como de bêbado ou para oferecer-lhe uma dose homeopática de compaixão.
Quem de fato notava a existência daquele homem, entretanto, eram as formigas que faziam de seu rosto parte do trajeto comunitário e os ácaros que dividiam com ele o tecido desbotado cobrindo aquela pele manchada - de sol, de sujeira e de dor.
Mas ali, deitado em posição fetal, sob o calor sutil dos fracos raios luminosos, ele era outro. Um outro que existia de forma tão convincente em seus devaneios que ele, o resto de ser humano real, conseguia sentir os cheiros, as texturas e os sabores de ser alguém digno e notável.
E o Outro era mais que isso. Porque além de limpo, bem tratado, saudável, belo e elegante, era poderoso, rico, sábio e invejado. Tinha o mundo a seus pés; jamais os seus pés estariam ali, chutados pelo mundo. Ria com todos os dentes e com todas as razões. Comandava multidões com um olhar incisivo e impunha suas decisões com um único gesto. Era mais que um homem.
Naquele momento, o Outro degustava um jantar requintado, servido por belas mulheres e acompanhado por rapazes brilhantes que esperavam uma palavra sua. Tinha ao seu alcance todas as invenções mais impressionantes, as bebidas mais elaboradas e os mais diversos títulos literários, bons e ruins. Depois do banquete, poderia admirar os jardins gigantescos e bem cuidados de sua casa, enquanto observava os limites de suas conquistas e a chuva fina que decorava as pétalas das flores.
Enquanto isso, o homem caído na calçada agitava-se sob uma chuva fria vinda inesperadamente, molhando os vestígios de roupa marcados pelas próprias fezes.
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