quinta-feira, 15 de julho de 2010

Espera

Sentada no calor dos poucos raios de sol que entram no quarto, ela pensa. Em todas as conversas, sorrisos, intenções e desejos. Em como tudo foi e é inesperado e envolvente, tão bom e inusitado. Em como quer aquele abraço, aquele beijo, aquele carinho. E também pensa em quanto quer sentir muito mais do que as palavras ditas já fizeram-na sentir.
Sentir-se confusa, envergonhada, feliz, desejada, meio boba, leve. Mulher e menina. Sentir o que ele sente, frente a frente. Sem medo ou dúvida. Tocar, saborear, inspirar e ouvir - com intensidade. Matar o carrasco de todos os dias: a vontade.
Depois de pensar, ela imagina. Cenas, frases, lugares e o que ele acha disso tudo. Porque ela é uma incógnita para si própria e ele, o desconhecido. Um caminho despretensioso que surge quando menos se espera e leva a lugares completamente novos.
Há uma estrada, porém, entre essas dúvidas e certezas. Quilômetros estranhos e intrometidos que ele desgosta e amaldiçoa. Distância que ela não digere e que lhe causa receios. E eles aguardam o momento em que um deles - ou os dois - cruze paisagens e cidades, até chegar em dias aguardados com certa ansiedade.
Entretanto, ela pondera. Difícil, complicado, talvez trará problemas e situações desagradáveis, envolveria histórias já finalizadas. Mas naquelas noites cotidianas tudo parece mais real e mais sedutor. Ela se deixa levar, possivelmente ele também. E cada vez mais esperam o encontro, futuro.

sábado, 19 de junho de 2010

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar


Obrigada, pai. Descanse em paz.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pode rir

Estava eu, me recuperando de uma prova terrível de teoria da comunicação, quando as pessoas ao meu redor começam a falar de situações esdrúxulas ou indecorosas. Eu falo muito naturalmente e quanto mais gente estiver envolvida na conversa, mais eu abro a minha boca - o que, inevitavelmente, me faz dizer coisas que eu deveria guardar para mim ou ao menos não contar para as outras 40 pessoas ali presentes. Vexame, a gente vê por aqui.
Logo, se 40 indivíduos sabem, não custa contar pra alguns outros poucos que passam por aqui.

Num determinado mês de julho, há alguns bons anos (não sei quando porque minha memória é uma merda), viajamos eu, mamãe, papai e um casal de primos da minha mãe. Fomos de carro para Chapada Diamantina, no interior da Bahia. Já não sei se o ocorrido foi na ida ou na volta, antes ou depois de eu ter me encantado com aquele lugar maravilhoso. Sério... Paisagens incríveis; uma pena que na época eu era muito pequena e não sabia tirar fotos (não que eu seja uma fotógrafa profissional agora).
Mas voltando ao causo: ida ou volta, whatever. Era de noite e acho que estávamos em Minas Gerais. Um frio terrível, muito terrível e minha mãe e a prima falando sem parar. Eu, esmagada no meio das duas, ouvindo aquela conversa ininterrupta de São Paulo até a Bahia, e vice-versa. Por algum problema em relação à rota ou à bexiga de um dos passageiros (eu avisei sobre a memória), paramos num posto policial.
Foi então que eu vi. Homens encapuzados, todos de preto, segurando armas. Juntei os elementos e pronto - achei que eram ladrões, terroristas ou qualquer coisa do gênero e comecei a berrar loucamente dentro do carro:
- NÃO PARA, PAI. NÃO PARA!
Todos, nesse instante, ficaram meio perdidos e ao mesmo tempo preocupados, me perguntando o que afinal estava acontecendo. Daí eu respondo, ainda insana e tremendo dos pés à cabeça:
- É LADRÃO ALI! É LADRÃO!
Assustam-se todos e olham, então, na direção que eu apontava. Meu pai volta o olhar pra mim e sentencia:
- São os policiais de balaclava, Winnie, porque tá frio.

Fim.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quereres

Amanhã, como a maioria dos poucos leitores deste blog sabe, é meu aniversário. Por isso, como um presente para mim mesma, resolvi tomar algumas resoluções. Na verdade, uma única: eu preciso de intensidade.
Quero ter coragem de arriscar, cometer insanidades, ignorar a opinião e o consentimento alheios. Rir até perder o fôlego, beber e perder o juízo, chorar até expulsar todos os meus medos e as minha dores. Permitir-me agir por impulso e ignorar meu cérebro que insiste tanto em pensar demais. Ser inconsequente em algumas ocasiões.
Quero sentir o coração pulsando, a respiração ofegante. Ultrapassar meus limites e temores, não envergonhar-me diante de determinadas circunstâncias, buscar o novo e enfrentar sem resistência as mudanças e transformações que surgirem. Em certos momentos, escolher o incerto.
Quero incendiar-me. Provar amores enérgicos, paixões febris. Conhecer e desvendar amizades. Absorver um pouco de cada pessoa e entregar a elas um bom pedaço de mim. Sugar o mundo. Sentir-me em turbulência, instável e volátil.
Quero mergulhar com tudo nas experiências. Me afogar em mares de novas oportunidades, mesmo que eu não saiba aonde possam me levar. Escancarar portas de caminhos desconhecidos. Proclamar as minhas verdades sem receio e questionar tudo o que me é imposto. Procurar meu lado decidido, resoluto.
Quero ser leve. Derrubar toda a rigidez que existe em mim. Viver de excessos, às vezes ou em boa parte do tempo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sinta

Gritos, exclamações e insultos são escutados ao longe. Adentrando na intimidade daquele quarto gelado, vê-se dois corpos ativos e tensos. Mergulhados em suas convicções, em seus próprios pontos de vista, sem que exista a possibilidade de calarem-se para ouvirem. Salivas disparadas no ambiente, um suor nervoso dissipando-se pelo ar, cordas vocais agredidas, dedos erguidos em denúncia, gestos grotescos de revolta ou incompreensão. Respiração ofegante, garganta seca, lágrimas contidas ou derramadas sem vergonha. Ranger de dentes, músculos contraídos, sobressaltos e retrocessos. Paira ali uma agressividade mútua, algumas palavras desmedidas e inexistente razão.
Então o cansaço os abate. Ofegantes e fatigados, repousam sobre a cama. Distantes, até caírem num sono perturbado.

Em algum outro lugar, só ouvidos atentos podem captar os sussurros. Mãos deslizam sobre ambos os corpos, a pele arrepia-se no mais suave dos toques. Palavras solitárias preenchem o profundo silêncio e ressoam como poemas, cânticos. Bocas umedecidas encontram-se, separam-se e experimentam sensações, revelando fraquezas tão ternas e delicadas quanto intensas. Falta-lhes o ar, o controle sobre si mesmos: eis a entrega. Cadenciados e harmoniosos, sentem-se leves, quase inexistentes. Ao mesmo tempo, muito vivos. Coração pulsando desregulado, sorrisos íntimos e olhares que invadem-se. Sentidos explorados até o último instante.
Então o cansaço os abate. Ofegantes e fatigados, repousam sobre a cama. Conectados, até caírem num sono acolhedor.

domingo, 18 de abril de 2010

Ora pois, patrícios!

Conversa verídica, escutada no ônibus, num domingo qualquer:

"- Ai, eu sempre achei essa coisa de chamar português de burro puro preconceito, até que comecei a trabalhar com eles.
- Jura? Por quê?
- Lá na Empresa X eles fazem muito negócio com gente de Portugal, então eu tinha muito contato com eles. Cada história, menina, de morrer de rir.
- Conta uma!
- Uma vez fui buscar um português no aeroporto, pra levar até a empresa. O sujeito pegou uma bagagem lá mas não conseguia abrir com a chave que ele tinha, foi reclamar e tudo com o pessoal do aeroporto!
- Hahaha Tinha pegado mala errada?
- Aham. Tinha duas malas iguaizinhas, ele pegou a que não era dele. Daí tava ele lá, reclamando, xingando o pessoal 'Como uma coisas dessas pode acontecer num aeroporto, ó pá?!', indignado. Até que chegou uma menina, com uma mala igual a que ele tinha pego. Quando ela viu ele lá, já entendeu tudo e quis trocar.
- E aí?
- Aí que o portuga surtou. hahaha Começou a gritar: 'Ora pois, esta rapariga roubou minha bagagem!'
- hahahaha Que doido!
- Pior é que a coitada da menina foi explicar pra ele que as bagagens só tavam trocadas. Pegou a chave dela, foi lá abrir o cadeado da mala que estava com ele e falou: 'Tá vendo, moço? Minha chave abre essa mala, tá trocada. Ó as minhas coisas aqui!'.
- Aí ele se conformou?
- Que nada! Ele apontou o dedo pra cara dela e disse 'Pois tire suas roupas da minha mala, rapariga!'"

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Só?

A menina está sozinha, observando as folhas caídas pelo chão e a teia de aranha construída sobre o banco. A intensidade com que respira denuncia o que sente por dentro: confusão. Ela está perdida, fragilizada e vulnerável.
O mundo transformou-se numa estrada um tanto quanto obscura e ela procura nos rostos estranhos algum olhar terno, a fim de encontrar proteção. Quer um abraço sem fim, um afago que ultrapasse o limite do corpo e lhe cubra a alma de paz.
Talvez esteja agressiva, o que significa apenas medo. Medo do que sente, do que imagina, do que lembra... Do que é agora: uma menina sozinha.
Então ela se cala e deixa fluir a corrente de águas turbulentas. Às vezes percebe-se sem forças e reduzida a fragmentos desconexos. Em outros momentos, alia-se à esperança - amiga imprescindível neste momento.
E assim as horas passam. Tudo passa, e isso a acalenta.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Compras

Saia rosa de bolinhas pretas, regata branca, tênis encardido e um guarda-chuva verde-limão junto com a enorme bolsa entraram no mercadinho empurrando a porta de vidro. Ela olhou para o balcão, onde estava o velho barbudo, sempre de cara fechada para os clientes e vestido com o desbotado avental - já não tão - verde.
Suspirou. Havia apenas três corredores à frente, então pensou que provavelmente seria bem fácil achar o que precisava. Deu um passo e parou. Qual escolher? TPM maldita, sempre me deixa indecisa, pensou. Decidiu-se pelo corredor do meio e seguiu com mais uns dois passos.
A primeira coisa que avistou foi uma caixa branca, com três letras prateadas em relevo. Aproximou-se e pôde ver pássaros e nuvens desenhados na embalagem em linhas finas. Paz, não era disso que ela precisava.
Vidrinho cor-de-rosa com purpurina anunciando Amor. Um pó verde fluorescente num frasco minúsculo com uma mensagem de "frágil" logo abaixo à Esperança. Um líquido vermelho incandescente provocando os olhos, borbulhando até aquecer e exibir a palavra Tesão. Uma pasta cinzenta num tipo de balde tampado, gotas deslizando sobre a superfície da embalagem anunciando a Tristeza. Nada disso, entretanto, era seu foco.
Sem notar, já estava no fim do corredor. Olhou a alta prateleira que encontrava-se ali, mas os nomes não condiziam com sua procura: Insegurança, Medo, Ternura, Coragem... Nunca imaginou que tão pequeno estabelecimento concentrasse tamanha variedade de produtos.
Já disposta a ir embora, abaixou os olhos em sinal de derrota. Surpresas da vida, lá estava ele. Um cilindro preto, contendo em seu interior uma cápsula incolor. Lembrou-se da aula de Ciências de muitos anos atrás: "água - incolor, inodora e insípida". Mas aquilo não era como água, longe disso. Seu cheiro, fétido e incômodo. Seu gosto, amargo e insuportável.
Pegou-o com certeza e levou até o velho mal-humorado, que espantou-se com a compra. Confirmou o pedido, informou-lhe o preço e recebeu o dinheiro. Ele ainda olhava com surpresa quando a saia rosa de bolinhas pretas, regata branca, tênis encardido e um guarda-chuva verde-limão junto com a enorme bolsa foram embora.
Na rua, ela andou até o parque, o lugar perfeito. Tirou o cilindro do embrulho, abriu-o e, sem hesitar, levou a cápsula até a boca e engoliu. Em segundos, a tampa com a inscrição Morte caía no chão.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Encontro

Ela acordou animada, sequer reclamou quando o despertador acordara desesperado e insistente. Arrumou-se com zelo, apreciou seu rosto delicado em frente ao espelho e saiu ritmada pela Sinfonia 41, a Júpiter - última de Mozart.
Caminhou por calçadas deterioradas e sujas enquanto analisava os próprios sapatos vermelhos e os alheios rostos inexpressivos. As nuvens formavam uma cortina à frente do sol e ela notou que logo mais uma certeira garoa deitaria sobre a cidade mal-humorada. O homenzinho de braços abertos do sinal tornou-se vermelho, proibindo-a de atravessar as faixas paralelas marcadas no chão. Encostou-se no poste para aguardar descansada. Nesse instante, porém, ela o viu.

Os dois encontraram-se no olhar. Milésimos de segundos, conectados e invadidos. Duplamente fascinados.

Ela lançou um sorriso tímido, abaixou os olhos timidamente, levantou-os de novo, fitaram-se mais uma vez. Ele pôde sentir seu cheiro, imaginar a textura de sua pele e provar o gosto de seus lábios: previsões. Deu alguns pequenos passos na direção dos olhos maquiados, apresentou-se e deslizou o indicador sobre a face delicada. Sorriu por completo, a envolveu em seus braços e foram os dois até o café da esquina, para conhecerem-se e apaixonarem-se.

Despertou do transe e procurou-o sem sucesso. O homenzinho tornara-se verde, algumas dúzias de pessoas atravessavam as listras paralelas. E ele sumira, como todo bom pretendente transeunte.

sábado, 10 de outubro de 2009

Segredos

Miúda, pernas finas e cheias de hematomas infantis, ela gosta de sentar nos degraus que dão para a rua para observar as pessoas, seus passos, suas roupas e suas esquisitices. Calça um par de chinelos velhos que quase não cabem mais em seus pés. O vestido doado pela sobrinha da vizinha sobra para todos os lados, as alças insistem em descuidosamente cairem por sobre os ombros magros. Os dedos compridos interrompem a organizada fila das formigas e caçam os tatus-bolas que também passam por ali.
O vento balança as folhas da macieira no quintal ao fundo. Um vento sutil e musicado, faz-lhe carinho nos cabelos compridos e cacheados, anéis loiros brilhando sob o sol forte do verão. Ela os enrola no mesmo dedo onde enrolou-se também o tímido amigo tatuzinho. Sorri para a senhora que vende doces. Os doces - chamativos, provocantes e tentadores - que ela nunca pôde comprar. É capaz de imaginar os sabores e como derretem na boca; sonha com o dia em que terá moedas suficientes para pagar aquela preciosidade. E sorri mais uma vez; para si mesma, para as ideias que alimenta lá dentro.
O sorriso é de dentes minúsculos e intensamente brancos. Ele abre covinhas, buracos delicados nas bochechas sardentas e rechonchudas. Aquele mesmo dedo da brincadeira com os insetos desliza sobre a cavidade, porque ela acha aquilo engraçado.
Uma voz grossa, forte o suficiente para penetrar-lhe na alma, a chama. O sorriso, a covinha, o indicador curioso: tudo se esconde. Tenta fingir que não escutou, mas o homem repete seu nome, ainda mais agressivo. Ela se vira lentamente, como se o vento agora fosse toda uma tempestade. Seus olhos caminham aos poucos pelo pobre e maltratado jardim, findando por chegar aos pés descalços e calejados que tanto conhece. O homem começa a esbravejar e reclamar por sua demora. Fraca, vencida... Ela levanta como se pesasse toneladas. De tristeza.
Limpa o vestido e anda na direção dos pés descalços. Eles viram mãos, que abrem a porta, que a empurram para dentro. Ela olha para os lados, à procura da saia rendada e do avental maternos; uma busca desesperada e certamente improdutiva. Ouve um grito, estremece. Aquelas mãos tomam-lhe o braço, ela sente-se quebrar por inteiro, imagina-se em cacos, espalhados pelo chão. Seria melhor do que a realidade.
A porta atrás de si é fechada e trancada. O homem a joga na cama estreita, o urso de pelúcia olha com piedade. E ela fecha os olhos. De novo aquelas mãos, aquele cheiro insuportável, aquela dor - é capaz de sentir tudo antes mesmo do princípio. Já não há resistência, não há esperança. Ele não vai parar até conseguir o que quer. E quando termina, as mãos que vagaram pelo corpo num repugnante desejo surram-na, porém ferem-na menos do que antes.
O algoz vai embora. Ela abraça o amigo urso, acaricia delicadamente suas orelhas macias. E chora. O choro traz o sono, e no sonho ela pode fugir.