quinta-feira, 17 de julho de 2008

E da muralha caiu uma pedra.

Querendo ser rígida, forte, superior a todas as tempestades, sobrevivente de todas as catástrofes. Mas peca por ser real, por sentir e por viver. Não há fortaleza capaz de barrar o inevitável, de controlar o tempo e o destino - coisas tão independentes à sua vontade e invencíveis na luta vã que decretara.
Eis que um dia o vento e a chuva vencem. Sua rigidez e imponência se esvaem nas partículas do ar e uma gota - que nasce dela - escorre por entre seus frisos, umedecendo-a por dentro. A estrutura supostamente tão forte é desmascarada; o interior corroído e abalado aflora, publicando a verdade escondida. Ou não.
Enfim, cai uma pedra: aquela que sustenta toda a construção. Os que olham apenas esperam, temerosos ou solidários, a derrocada final. E ela será um recomeço, nada mais que um recomeço.

sábado, 12 de julho de 2008

Por quê?

- Mãe, por que as árvores são tão grandes?
- Porque elas comem bastante. É o que você devia fazer pra crescer também.
- Mãe... Quero saber essas coisas sérias que passam naquele canal chato cheio de animal e com aquele moço que tem voz de filme.
- Tá bom, tá bom! Olha, elas primeiro são sementes bem pequenas, que fi...
- Ah, semente não! Você também ficou falando essas mentirinhas quando eu perguntei como eu tinha nascido e depois a tia Lúcia falou que você e o papai tinham feito coisinhas!
- Mas as sementes da árvore existem mesmo, filha. A vovó compra um monte delas pra plantar no jardim dos fundos. Elas são bem pequenininhas, do tamanho de um feijãozinho.
- Huum, e de onde vem a folhinha?
- Pois então: a semente vai crescendo lá debaixo da terra, começa a criar galhinhos, depois vem as folhinhas... Passados muuuuitos anos, ela vira essa árvore enorme aqui.
- Que legal! Eu podia ficar grandona igual uma árvore, né mãe?
- Aí você não caberia nas roupas, nem na cama, nem em casa. Pessoas não podem crescer tanto, querida.
- Por isso o papai morreu? Por que ele era grandão?
- Não, filha. Papai não era grande como uma árvore. Ele só era um homem alto.
- E por que o papai do céu levou ele?
- Porque ele tinha feito um acordo com o seu pai e os dois haviam decidido que aquela seria a hora dele se juntar aos amiguinhos de lá.
- E por que o papai não combinou outra hora com ele? Por que ele não esperou eu sair da sua barriga?
- Isso só o seu papai e o do céu sabem responder, mas provavelmente foi a melhor escolha. Sabe aquelas conversas que você tem à noite com ele, antes de dormir?
- Aham.
- Pergunta nessa hora. Hoje, por exemplo, você pode fazer isso.
- Mas Deus não me responde, mãe. Ele só ouve e me protege...
- Ele não vai te responder na hora, mas um dia responderá.
- Papai do céu não sabe que pergunta de criança tem que ser respondida na hora?

Um silêncio, uma piscada, uma risada inocente e um abraço para terminar o passeio no fim de tarde primaveril.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Happy Beatles Day!



Pra comemorar ouvindo: If I Fell


[Tentei upar o vídeo, mas o blogger ficou de frescura! E obrigada pelas recomendações do post anterior! Perguntinha: quem é a de férias? :P]

sábado, 5 de julho de 2008

Procura-se.

Tô caçando um livro interessante na estante aqui de casa, mas nenhum me agradou até agora. E olha que as opções são muitas. E boas.

Alguém me indica alguma coisa? :D



[Queria mesmo uma viagem... Uns 5 dias só pra mim - ou não, ficadica - seriam maravilhosamente reconfortantes, física e psicologicamente falando.]

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Quatro amigas sentadas na escadaria suja, cada qual com seu afazer e preocupação.
A mais alta, no primeiro degrau, segura três livros sobre Trovadorismo e faz palavras-cruzadas. Seu sonho é escrever uma dessas cantigas de amigo, para poder desabafar sobre aquele que lhe elogiou a inteligência, a simpatia e a boca carnuda, mas que há duas semanas depois do jantar na casa dela sumiu. Ela não quer declarações apaixonadas, pedidos de desculpas acompanhados de flores e beijos ardentes ou qualquer coisa do gênero. Apenas um "oi" via e-mail ou uma sms com 10 caracteres já vale como o mínimo de respeito pelos tantos elogios outrora feitos e pela noite tão boa daquele dia.
Atrás da mais alta está a compenetrada oriental dos olhos verdes ajustando a câmera digital. É daquelas mulheres de fibra, de parar o trânsito e deixar marmanjos de queixo caído. Até quem não gosta de olhos puxados admite-se encantado por ela. Bom, menos ele, que preferiu trocá-la por uma garrafa de uísque e vários quilos de cocaína. Enfim, escolhas... Por um tempo ela chorou, mas sabe? A vida continua e homem tem de sobra. Logicamente, porém, nada disso mudará o fato de que durante 5 anos os dois partilharam da mesma cama e da mesma vida.
A baixinha - a mais falante e com mais história para contar - tenta organizar as coisas na mala, o que não deixa de ser uma atitude improdutiva. Ora, ela nem ao menos consegue organizar as idéias na cabeça, quanto mais seus pertences pessoais. Mas é disso que ela gosta: bagunça, desordem e tudo que há de desajustado no mundo! Conheceu um cara na formatura da prima ontem e já se diz loucamente apaixonada por ele, só que não quer desistir do affair com o marido da vizinha, afinal seu lema é "aventura representa a essência de viver!". As outras não apóiam, mas ela ignora as críticas e alega que se todo mundo fizesse o que dá vontade a felicidade não seria substantivo abstrato.
Por fim, a de óculos e cabelos chanel. No momento, lê uma matéria sobre intervenção urbana. Ela narra em voz alta as partes mais interessantes e tenta explicar para as demais o conceito da coisa. Em vão - quem ainda ouve não entende, não gosta ou não acha legal. Ela desiste e começa a lembrar do último sujeito com quem saiu - gostava dessas coisas. Mas ela enjoou, como sempre acontece. Não é sua culpa, os homens que se tornam repetitivos a partir da 25ª semana de relacionamento. Teoria de socióloga formada, ninguém discute.
No banco em frente pousa um casal de andorinhas. Tão mais simples a relação macho-fêmea entre os pássaros, não?






[Off: O sumiço foi por causa do fim de semestre. o/]

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Visita indesejada

Ela chegou cautelosamente silenciosa. Mostrou-me sua bagagem desagradável e logo depois esclareceu que era tudo mercadoria sem valor.
Pareceu ir embora, contudo dias depois ressurgiu. Mais viva, mais preparada. Riu de um jeito sarcástico, com olhar de prepotência e falsa piedade.
Piscou e elaborou um discurso minuciosamente preparado e objetivo, que me deixou suscetível e desarmada. Conseguiu de mim o que queria, fez de mim sua freguesa e vítima.
Odeio sua presença, senhora Insegurança.

domingo, 25 de maio de 2008

O post vai ser musical. Não por preguiça ou falta de criatividade, mas é que o Amarante escreve bem melhor que eu! E sim, eu serei clichê!
Nota: muda tudo pro eu-lírico feminino. 3ª pessoa e vocativo para o masculino, consequentemente! :D

Eu encontrei-a quando não quis
mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
antes um mês e eu já não sei

E até quem me vê lendo o jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena

Ah vai!
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei-a e quis duvidar
Tanto clichê deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor

E só de te ver eu penso em trocar
a minha TV num jeito de te levar
a qualquer lugar que você queira
e ir onde o vento for, que pra nós dois
sair de casa já é se aventurar

Ah vai, me diz o que é o sossego
que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar

Taí a verdade.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A vontade de ser pluma

Estou apaixonada por Milan Kundera e seu A Insustentável Leveza do Ser. Li só a metade do livro, mas me sinto tão seduzida por cada linha, por cada palavra ali escrita que já o defini como uma obra literária para se ter na cabeceira da cama por toda a vida.
Acho que a sedução que o livro exerce sobre mim pode ser explicada por algo bem simples - Milan escreve sobre o que eu sonho em ser: leve.
Eu sou a pessoa presa à razão, à ponderação, à parcimônia, ao pavor do impulso, ao pensar exagerado, ao medo de arriscar... Não sei abdicar do peso, seja ele qual for e independente do quanto me sufoque. Tenho receio da crítica, da censura, do erro e do equívoco, muitas vezes inexistentes ou mesmo insignificantes.
Minha intenção não é agradar ao mundo. O que me prende é uma coisa muito mais particular e subjetiva, que não consigo definir com clareza. É como se houvesse alguém dentro de mim, me vigiando e avaliando, e que eu temesse frustrar. Meu vocabulário parece reduzido demais ao tentar explicar essa minha mania de não agir, de adiar minha vida e ficar pensando nas mil e uma possibilidades que estão contidas em cada escolha e atitude.
Pareço uma criança no primeiro dia de aula, que se agarra à mãe por medo daquela nova realidade, do desconhecido que lhe parece assustador. É isso, eu tenho medo do desconhecido. Mas se eu nunca abdicar disso, se eu nunca me expor ao misterioso e incógnito, serei sempre a mesma criança imatura e covarde.
Bah! Chega de usar este blog como divã de psicanalista. Só estava precisando organizar minhas idéias fora da minha cabeça. Parece que assim eu consigo vê-las de uma maneira mais transparente e compreensível, o que supostamente facilitaria a minha tentativa de "interpretação em primeira pessoa". :D


Daqui 2 dias sou oficialmente gente grande. Bela bosta! Vou continuar a fazer as mesmas coisas, só que legalmente. (Y)
Quero telefonemas, torpedos, scraps, depoimentos, comentários, mensagens telepáticas, seja lá o que for. Não esqueçam de me dar parabéns, porque eu sou rancorosa! u.u
Hahaha

o/

domingo, 13 de abril de 2008

Um pouco de ficção.

O sol esquentava a cama e o seu rosto, mas a preguiça era maior e por isso ela continuava deitada. Empurrou o lençol para mais longe e observou a claridade que batia em suas pernas. Sentiu vontade de sorrir, sem motivo aparente. Olhou o relógio: já era hora de levantar, afinal um dia longo e atarefado a esperava ansiosamente.
Fez tudo como de costume, mas lhe parecia que cada aspecto do seu dia-a-dia - por mais simples que fosse - mostrava-se mais colorido, intenso e prazeroso. Foi para a rua, pegar aquele caminho tão rotineiro e sem graça. Surpreendeu-se, porém, com uma cidade que mostrava-se mais bonita. Até o ônibus cheio lhe pareceu menos penoso.
E desse modo as horas foram passando. A noite chegou e ela despediu-se de suas obrigações. Voltou para casa, tomou um banho e então sentou no sofá, com uma caneca de leite gelado na mão. Olhou para o lado e lá estava o telefone. Apertou o botão da secretária eletrônica, recostou-se no sofá e fechou os olhos, enquanto esperava a voz mecânica terminar sua fala programada. Nesse momento, enfim, a voz dele ecoou pela sala. Suas palavras tão bobas e comuns ganharam asas e começaram a dançar por todo o aposento.
O som de bip avisou que chegara o fim da mensagem. Ela abriu os olhos e deu de cara com seu reflexo na mesinha de centro. Tinha ares de criança e um sorriso inconsciente estampados no rosto. Colocou a caneca sobre o móvel, apagou a luz e deitou no sofá. Logo adormeceu.

De repente, acordou. Olhou para os lados e estava no quarto de hospital, de volta ao seu verdadeiro mundo. Fora tudo um sonho, lembranças de um passado recente que ela queria de volta.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Aquilo que restou do que se foi

Era um sábado comum, mas terminou com a visão brutal da morte. Um instante, um momento insignificante na História - e a renúncia de uma vida ainda jovem, num impulso que eu diria ser de muita coragem.
Ainda relembro inconscientemente aqueles segundos perturbadores e sinto aquele cheiro repugnante nas horas mais impróprias. Sentidos que surgem durante o dia, durante o sono... A todo instante, trazendo recordações indesejáveis.
Não sei por quais motivos aquele rapaz sem rosto e sem identidade decidiu fugir. Não tenho intenções de julgá-lo, de criticá-lo ou de me colocar em seu lugar. O livre-arbítrio nos foi dado para usarmos da maneira que melhor nos conviesse. E a única coisa que posso afirmar é que naquele instante a fuga era a melhor saída que ele enxergava.
Foi uma experiência atormentadora que ficará incrustada por bastante tempo em mim. Ou quem sabe permanecerá sempre aqui, surgindo em momentos aleatórios da minha vida. O fato inegável é que eu mudei de certa maneira o meu jeito de olhar o mundo, pelo menos por enquanto. Quero viver, no sentido mais literal que a palavra possa ter.

Mas resta ainda uma pergunta: quão fina é a linha que separa a nossa sanidade mental do desespero enlouquecedor?