quarta-feira, 3 de abril de 2013

Imposições

Era uma segunda-feira fria e chuvosa. Ela gastou um bom tempo na cama depois que o relógio despertara, tentando se livrar da preguiça e dos pensamentos negativos. Depois levantou, tomou um banho quente e demorado, escolheu a roupa calmamente, arrumou o cabelo sem pressa, foi organizando as coisas vagarosamente, como se tivesse o dia todo livre pela frente. Era isto que queria, era isto que seu corpo precisava e que sua mente exigia: um dia inteiro de inércia.
Enquanto caminhava até a cozinha, pensou como a vida é uma sequência de acontecimentos impostos, seja por algo desconhecido (que alguns chamam de acaso, outros de destino) ou por pessoas. Ela não acordava todos os dias naquele horário por vontade própria, mas porque ficou estabelecido que o ser humano tem de ser produtivo entre 8h e 18h. Ela não escolhia aquela roupa por ser a mais confortável, mas sim porque era a opção mais agradável dentro do que se definiu como "roupa de trabalhar". Ela não saía de casa porque queria ver a rua, as pessoas; saía porque era obrigada, porque tinha compromissos, porque tinha horários, porque tinha regras, porque tinha que ser assim.
"E por que tem que ser assim sempre?", perguntou-se enquanto colocava o leite na caneca. "Por que sou obrigada a ignorar minhas vontades diárias? Por que sou obrigada a sair da minha cama num dia em que queria fazer dela meu esconderijo, meu único refúgio possível? Por que preciso me forçar, todos os dias, a acordar num horário com o qual meu corpo não se ajusta? Por que preciso fazer as coisas num período pré-determinado que ignora meu ritmo e minhas particularidades? Por que não posso decidir como administrar meu tempo e meus afazeres? Por que tenho que me sujeitar a um padrão que não me representa? Por que tenho que me encaixar numa fôrma que ora é pequena demais para os meus anseios, ora é grande demais para os meus receios?"
Desanimada, olhou a chuva pela janela. Pensou em fugir, desistir de tudo, mesmo que passasse por louca. Aí se lembrou que tinha contas demais a pagar, satisfações demais para dar, gente demais para julgar. Neste mundo, sequer desistir é uma opção.

Um comentário:

Milena disse...

exatamente isso. desistir ainda não é uma opção. :~