domingo, 30 de agosto de 2009

Para sempre?

Luís era ainda Luisinho. Andava relutante de uniforme azul, vermelho e branco, tênis novo no qual acabara de treinar a técnica de amarrar os cadarços, meias tão brancas quanto as madeixas da Vovó Matilde, o cabelo dividido no meio e a lancheira do ThunderCats gelada do Toddynho. A mãe insistia, puxava, enumerava argumentos para defender a idéia de que escola era um lugar muito divertido e importante, onde ele conheceria vários amiguinhos.
Amiguinhos? Ele se questionava, por que precisaria de mais amiguinhos? Tinha o primo, o vizinho e os brinquedos, estava bom demais. Imaginar mais pessoas que fossem dividir suas coisas, propôr outras brincadeiras... Isso não era nem um pouco legal. Mas ele era obrigado a ir naquela tal de escola. Restava-lhe rogar milhares de pragas sobre quem teria inventado essa coisa sem sentido e continuar a caminhada forçada.
Chegaram os dois no portão colorido. A mãe entregou-lhe a mochila (também do ThunderCats), deu-lhe um beijo, disse meia dúzia de palavras falsamente animadoras. Uma moça de avental sorriu e puxou conversa. Sua mãe lhe ensinou que não se podia dar informações para estranhos, portanto recusou responder o que ela lhe perguntava. Como se apresentou como sua professora, porém, ele achou melhor obedecer e dizer até o que não precisava.
Entraram na sala, ele ocupou um lugar. Tirou o caderno, o estojo e percebeu os olhares. Evitou nos primeiros momentos, mas ao final da tarde já estava lá, chamando Paulinho para brincar de bafo (percebeu como este tinha várias figurinhas interessantes que ele procurava!). Eis o primeiro dia de aula, o primeiro amigo. Com o tempo já não chamava só Paulinho para as brincadeiras - conhecia todos e até falava para a mãe que os queria como convidados na sua próxima festa de aniversário.
Por anos foi isso. Amigos eram sinônimos de diversão. Pouco conversavam sobre o mundo, sobre as pessoas. Tudo era ligeiramente irreal, fantasioso, lúdico. Bastavam os brinquedos, as risadas, as brigas e alguns choros. Nada que não fosse possível resolver com o intermédio das mães.
Aniversários regados a bexigões e decorações - de dar inveja às melhores cenografias televisivas - aconteceram. O passar dos anos provocou o asco de Luisinho por essa denominação diminutiva. Pegava mal, principalmente na frente dos amigos. "Amigos, mãe, eu sou grande já! Amiguinho não!!" Contava com quase uma década de idade já, uau. E não gostava de incluir meninas em seus projetos e relacionamentos; não aguentava a forma como reclamavam, como eram nojentas, como choravam por causa de um empurrãozinho. Abominava. Enquanto isso, adorava agredir os coleguinhas, contar histórias mais interessantes que as deles. Começou a ter noção de que amigos nem sempre fazem coisas legais. Mas existia videogame, futebol... Dava para resolver. E assim seria para sempre.
Depois de mais alguns anos, a adolescência chegou. Meninas, hum! Como ficaram interessantes, diferentes e tentadoras. A outrora Lolô, agora Heloísa, peitudinha, coxa chamando atenção nas aulas de Educação Física, repetia a todo momento que os dois haviam crescido juntos, que ele era um grande amigo. Nesse dia decidiu que amizade com mulher inviabilizava qualquer alívio sexual. E se enfiava no banheiro.
Para os amigos contava histórias de sexo alucinado, posava de garanhão. Comentavam das amigas de sala, das vizinhas, alguns atreviam-se a falar da irmã alheia. Luís (ou melhor, Luisão: era o mais alto), filho único, podia falar de qualquer uma.
Mas não bastavam as conversas sobre sexo. Conheciam de forma mais vasta a música, começaram a experimentar coisas juntos, reclamavam dos pais, da vida. Luís planejava morar com alguns deles, dividir um apartamento no centro onde pudessem levar quem quisessem, fazer festas a hora que desejassem.
Perguntava aos mais íntimos o que fazia em relação à Heloísa, e foi com a ajuda deles que os dois se beijaram, que os dois se agarraram, que os dois transaram. Amigos. Luís traduzia essa palavra numa vastidão impressionante; era a solução dos seus problemas, o seu futuro, seus segredos, seus medos. Todos estavam praticamente no mesmo barco, sentiam a mesma coisa. Seus amigos eram ele próprio. E assim seria para sempre.
Pena que ninguém fica toda a eternidade na escola. Terceiro colegial, aquela vadiagem no primeiro semestre inteiro, o desespero depois das férias de julho. Luís se sentia o mais perdido em relação a seu futuro, não tinha idéia sobre o que ser para o resto da vida. Paulo, o Paulinho daquele primeiro dia de aula, decidiu-se pela Medicina, preparava-se para mais alguns anos de cursinho. E ele, na dúvida.
Forçaram-no a fazer teste vocacional, a visitar faculdades, a conversar com profissionais. Jornalismo, pronto. Sempre gostou de escrever, de investigar - achou que era o suficiente. O Ensino Médio acabou, várias festas rolaram, Heloísa chorou em seus braços, ele a pediu em namoro. Alguns amigos reclamaram, se afastaram, lhes parecia que Luisão perdia a graça sem a vida de solteiro pegador como a deles.
Formados, uns já foram para a universidade, outros para o cursinho (como ele mesmo e o amigão Paulo), outros ficaram vadiando escondidos na desculpa de que precisavam decidir sobre a profissão. Prometeram, entretanto, que não se separariam, que se veriam sempre, alguns fizeram pactos de amizade até a velhice.
Isso aconteceu? Inicialmente sim. Só que a vida se encaminha, novos amigos aparecem, Heloísa conhece um cara mais interessante, o trabalho começa a consumir a vida nova. Agora eles se falam via internet (quando o destino os coloca online na mesma hora).
Depois, chegado à casa dos 20 e poucos anos, Luís cursa a faculdade, dirige, mora sozinho. O Paulo alugou um apê no mesmo quarteirão, está sempre lá. Novos amigos surgem: da balada, do trabalho, da vizinhança, conhecidos dos conhecidos. Tudo muito passageiro. Mulheres, os grandes problemas, discutidas e analisadas em mesas de bar, em partidas de sinuca. Comê-las, sempre. Procurá-las mais, talvez. Casar-se, jamais.
Mas desde sempre o ser humano morde sua própria língua. Luís, formado, conhece a prima de Paulo. Com todo respeito: que foda, que noite! Precisa procurá-la mais vezes, uma caça inusitadamente deliciosa. E os amigos fazem piada, dizem que ele está amarrado, fazem sinal para chamá-lo de encoleirado. E Paulo dá força, talvez por também estar aflitivamente interessado por uma ruiva do trabalho.
Ele muda de emprego, conhece outros tantos amigos. As conversas andam mais sérias, mais densas. Luís decide, sem ouvir os solteirões convictos: quer viver com Eduarda até o fim de sua vida. Ama e nessa hora os colegas o respeitam, talvez porque também amem às escondidas, talvez porque também desejam amar.
Anos e mais anos. Luís é pai, jornalista conhecido, apresenta os primeiros cabelos grisalhos. Os amigos do colégio não vê faz muitos anos. Os do trabalho... Mudam alguns, outros permanecem. Surgem novos, nem todos fiéis e verdadeiros o suficiente para ficarem. E Paulo, categoria à parte, agora compadre, irmão.
Enfim, a velhice. Os filhos têm sua própria família, a própria vida. Aposentadoria. Já nem sabe por onde andam os caras do trabalho, das partidinhas de futebol, de golfe. Sua vida anda limitada: idade é sinônimo de dor. Prefere um vinho e um jantar bem preparado, uma conversa longa, divagações.
Conta nos dedos de uma mão aqueles que são amigos, que merecem sua confiança e seu respeito. Mas cada ano morre um. E sobra Paulo, o amigo de bafo, de álcool, mulheres, faculdade, família, vida. E assim será, para sempre até também partirem os dois.

5 comentários:

JeaN disse...

Depois de ler isso até fico com vergonha de escrever alguma coisa, então só vou usar uma palavra.
FODA!

Cláudio DeLarge disse...

Fantástico, Wi. Foi um texto que eu literalmente engoli. Lia desesperadamente para saber logo o fim sem querer que ele terminasse. Adorei, parabéns. :*

Dorita disse...

Visual novo!

Ficou lindo florzinha!

:]

Nath disse...

Genial.

Anônimo disse...
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