Muito além do raio que nos cerca

Alguma família nordestina divide um pacote de farinha e meio kg de feijão em 12 porções, que devem durar por três dias, se Deus quiser. Uma filha está presa no porão, sendo abusada sexualmente pelo próprio pai. Milhares de mulheres estão sendo agredidas, menosprezadas, tratadas como lixo inutilizável. Médicos lutam para salvar doentes terminais enquanto cientistas tentam encontrar a cura para outros. Alguém chora envergonhado por conta de um vício, de uma fraqueza mental que corrói cada célula do seu corpo. Mães que perderam seus filhos amparam-se umas às outras, sem notícia, sem corpo, sem um fim acalentador. Atulhados feito animais enjaulados, presidiários pagam por suas ações, sem que haja reeducação ou recuperação da maioria - apenas a ampliação do ódio e da insistência para com o crime. Um velho cansado e calado dorme na calçada gelada, ouvindo o ruído dos carros e de seu estômago vazio. Pequenos seres fumam crack, se vendem para caminhoneiros, são vendidos pela família, praticam pequenos furtos pelos centros das capitais.
Enquanto isso, uma criatura escreve uma mensagem para seus amigos virtuais, reclamando da vida e dizendo que não "está pra ninguém". Por quê? Porque sofre de insatisfação inexplicável e crônica, em seu quarto enorme, confortável e recheado das maravilhas da tecnologia, depois de ter feito 2 cirurgias plásticas aos 19 anos.
E algum dia você perceberá como são inúteis esses gestos de autopiedade.

1 pitacos:

Natália disse...
14/12/08 01:43

Sem palavras! Praticamente uma Cientista Social.

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